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Quando decidi ir para o Reino Unido (adiante designado de “UK”), vasculhei a Internet à procura de informação, daquilo que teria que fazer, que documentos necessitava, onde me dirigir… Mas encontrei informação fragmentada, por vezes generalizada, e ás vezes até contraditória. Cada pessoa fala da sua experiência, e não há um “guião fixo” para ir trabalhar para o UK como enfermeiro. Espero que com o que irei escrever nesta pagina, descrevendo os passos que dei, possa esclarecer as dúvidas que tenham.

Quero deixar claro que o que descrevo adiante foi o meu percurso. Não deve ser tomado como fonte segura, nem como um modo único e standard de fazer as coisas.

Pois bem, então cá vamos! Esta é a minha história…

Por volta de Dezembro de 2010 comecei a ponderar a hipótese de sair de Portugal. Por essa altura esse cenário ainda estava muito esbatido. Era apenas uma hipótese, mas a pouco e pouco, fui construindo essa opção e esta foi tornando-se cada vez mais sólida e válida.

Por essa altura pouco sabia sobre emigração. Não fazia ideia de como sairia de um país para outro, que burocracia? Como fazer? Para onde ir? A quem me dirigir? E a língua!?
Por essa altura era tudo muito abstracto para mim ainda…era uma hipótese apenas, mas ainda não a tinha aceite como opção.

Terminei a Licenciatura em Enfermagem em Julho de 2010 em Coimbra, e até àquele momento ainda não tinha surgido nenhuma oportunidade de trabalho. Tinha esperança, mas não surgiu nada até então. Por essa altura comecei a ter conhecimento de muitos colegas (alguns conhecidos, outros nem tanto) que emigraram e foram exercer para a Suíça, França, Espanha e Reino Unido. A cada semana que passava tinha conhecimento de mais algum(a) colega que chegava a um outro país para trabalhar.
Pensava para mim que a situação só poderia estar muito má! Tanta gente a ir para o estrangeiro apenas significava que o mercado de trabalho em Enfermagem teria que estar estagnado. E está! Não há concursos, e quando os há exigiam RJEP (Relação Jurídica de Emprego Público) ou experiência profissional. A precariedade está instalada.

Enviei dezenas de currículos desde que terminei. Concorri a concursos públicos. E nada! Simplesmente o mercado está saturado, devido a variados motivos.

Em Janeiro de 2011, comecei a investigar mais a sério a possibilidade de emigrar. A pouco e pouco fui reunindo informação. A papelada ainda é alguma, e as dúvidas são inúmeras. Como será? O que é preciso fazer? O que levar? Como fazer!? A cada resposta que obtinha surgiam-me dezenas de novas questões.

A pouco e pouco, a ideia de sair de Portugal foi tornando-se uma hipótese cada vez mais substancial. Na altura não me dei conta, mas a cada peça de informação que juntava era um degrau que subia para chegar, neste caso, ao Reino Unido.

Que país? Não conheço ninguém que esteja fora de Portugal. Não tenho familiares no estrangeiro. A minha namorada tem familiares na França e na Suiça. Essa era uma hipótese pois teríamos alguém para nos ajudar.
Mas Francês não é o meu forte (nem o da minha namorada). Acabei por escolher o UK. Na altura pensei em tirar um curso numa língua (Inglês ou Francês) numa escola de línguas em Coimbra, mas essa situação não se proporcionou e seria dispendioso para mim, uma vez que já não estava em Coimbra e não tinha alojamento. Essa hipótese caiu por terra… Continuei sem saber se teria capacidade de ir para outro país, se saberia inglês o suficiente para emigrar. Essa dúvida ainda hoje a tenho, mas após a primeira entrevista que tive em Inglês ganhei alguma confiança. Até agora tenho-me desembaraçado bem apenas com o inglês da escola básica/secundária.

Nas pesquisas que fiz, encontrei várias agências de recrutamento que ajudavam enfermeiros e outros profissionais de saúde a ir trabalhar noutros países. Descobri que para trabalhar no UK seria preciso estar registado no Nursing and Midwifery Council (NMC) e que para isso seria necessário reunir alguma documentação. Reuni várias informações e cheguei a uma conclusão…

Entre Janeiro e Fevereiro de 2011 tomei a decisão de arriscar. Decidi ir para o Reino Unido. Não tinha emprego, não tinha nada a perder em arriscar. Era arriscar esta aventura ou ficar sentado no sofá a enviar currículos e a desesperar por ver muitos colegas levantar voo para outros países.

Se me perguntarem se foi difícil ou não, não saberei responder. Simplesmente vim. Não havia muito a perder, e havia muito a ganhar! A minha namorada apoiou a decisão e eu vim primeiro. Ela virá depois. Contei aos meus pais. No inicio pensavam que eu não estava a falar a sério e alinhavam na brincadeira. Mas nos dias seguintes, quando o disse a sério tiveram várias reacções ao mesmo tempo. Um mix de sim/não, de “fazes bem, esta país tá nas últimas” / “e vais para lá sozinho!?”, de apoio/receio por mim. Por um lado apoiavam, mas por outro estavam inseguros. Após o choque inicial, gradualmente foram apoiando incondicionalmente. Hoje dizem que fiz o melhor.

Percebi que muitas agências de recrutamento pediam o registo no NMC. Pelo que abri as hostilidades e comecei a tratar disso. Primeiro foi necessário pedir o Application Pack. Preenchi o form que está disponível no site e enviei com os meus dados. Passados alguns dias recebi em casa o Application Pack.
Depois foi necessário preencher esse documento e enviar de volta para o NMC com os anexos que pediam. Enviei os seguintes documentos:

Fotocópia autenticada por notário do BI;
Fotocópia autenticada da cédula da OE;
Fotocópia autenticada do certificado de curso + tradução deste documento em Inglês;
Declaração emitida pela OE em como estamos inscritos e em como não há nada em nosso desabono (e onde conste uma directiva europeia que agora não me lembro) + tradução deste documento em Inglês.
Registo Criminal (podem pedir numa Loja do Cidadão, Conservatória, etc) + tradução deste documento em Inglês.
Certidão de Nascimento Internacional (já vem em várias línguas, pelo que não é necessário traduzir. Pode ser obtida na Loja do Cidadão, Conservatória, etc)

Além disso foi necessário pedir ao médico de família para assinar e colocar vinheta/carimbo no Application Pack onde atesta que estamos capacitados a exercer. Também poderá passar uma declaração, mas nesse caso terão que a traduzir para inglês, o que envolve custos obviamente.

As traduções fiz em Coimbra numa tradutora certificada. Cada documento traduzido fica em 20 euros, e ficamos com 3 traduções de cada documento para o caso de vir a ser preciso. As traduções são autenticadas com carimbo e assinadas. Já a certificação de cada documento ficou-me em 15 Euros num notário. Posso adiantar que nenhum dos documentos voltou para trás e foi aceites.

Depois de recolher toda a documentação, o que me levou ainda umas semanas, enviei para o NMC. O processo é moroso e levou várias semanas até ser aceite.

Enquanto esperava, vi que uma das agências iria realizar entrevistas com o empregador no Porto em Março de 2011. Entrei em contacto com eles e fui à entrevista, após a qual me foi dito que gostaram e que me iriam oferecer contracto. Naquela altura nem parecia real. Tinha acabado de regressar a Coimbra após a entrevista, vindo do Porto, e recebi essa notícia! Estava tudo no bom caminho.

Foi-me enviada documentação para assinar. Tive que pedir a 2 professores para passarem 2 “references” e enviar para o empregador. As referências são documentos onde os professores falam sobre nós, dizendo o que desenvolvemos em estágios, fazendo uma espécie de “recomendação” sobre nós.

Estava tudo a aproximar-se lentamente, mas ao mesmo tempo muito depressa. Fui tratar do passaporte ao Governo Civil, pois facilita ter este documento. Paguei mais 65 Euros para ter o passaporte. Também por essa altura começaram a surgir muitas dúvidas. Como seria? O que iria fazer assim que sair do avião? Para onde ir? Estaria alguém à minha espera? Saberia desenrascar-me? E a casa? Tudo um mundo novo e eu sem saber nada! o desconhecido e o medo é algo que está sempre presente neste processo. Mas vai diminuindo a cada que passa aqui!

No inicio de Maio de 2011 fui aceite no NMC. Tive que realizar o pagamento de 76£. Para isso basta ligar para lá e dizer o número do cartão de crédito assim como outros dados que eles pedirem. No caso de não ter cartão de crédito penso que poderá ser feita uma transferência para o NMC. Mas eles irão dizer tudo o que terão que fazer para completar o pagamento. Após o pagamento, recebi o PIN Number Card. Com este documento já podia exercer no UK. Só me faltava isto, e a partir daí foi num ápice enquanto cheguei ao UK.

Marquei a viagem e é aí que o nosso cérebro dá um nó! Estamos a um passo de nos meter-mos num avião e depois disso: desconhecido. Pelo menos comigo foi assim. Pensei que iria ser uma aventura e que se algo corresse mal…enfim, é só regressar a Portugal! É preciso pensar positivo! Mas é estranho quando estamos a um passo de ir, a umas horas de ir e vemos familiares a chorar por irmos…Dizer adeus no aeroporto e seguir para o avião…deixar o nosso “Mundo” para trás…namorada (embora ela venha em breve), família, amigos, e o meu cão, a minha casa…sair de casa e não levar chaves…deixar tudo para trás… É estranho, mas foi a opção que escolhi, pois em Portugal não tinha a opção de exercer aquilo que estudei.

Comigo trouxe 20 kg de roupa, 170 Libras que troquei no aeroporto, o computador e pouco mais…

Hoje, já passaram 13 dias desde que vim e parece que isso foi há tanto tempo…
Ainda não tive tempo para fazer muito por aqui, pois tem sido só trabalho-casa. Mas em breve vou explorar o Reino Unido!

Esta é a minha história!

enfermeiroUK

Escrita a 20/06/2011, publicada com os  agradecimentos a enfermeirouk.com /  enfermeirouk.wordpress.com

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