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Exmo. Sr. Presidente da República,

Escrevo-lhe esta missiva na distância dos cinco anos que já nos separam quando, no dia cinco de Setembro do ano de dois mil e sete, outra alternativa não tive senão a de emigrar. Partida: Aeroporto da Portela. Destino: Londres, Inglaterra, à procura do tão almejado emprego como professor, emprego esse insistentemente negado neste Portugal que é o nosso mas ao qual não conseguimos pertencer. Na memória ainda viva a imagem da namorada e da irmã nos braços uma da outra, lavadas nas lágrimas de quem não sabe quando nos tornamos a ver, ou se nos tornamos a ver. Não há despedidas felizes. Um adeus é e será sempre um adeus, quando se entrega nas mãos de Deus a sorte e o destino dos viajantes deste mundo. Ou não tivessem as estações de comboios nomes de santos…
Portanto, vim só. Só e sem emprego, com pouco mais de uma morada no bolso e a esperança sem fim de construir noutro país a vida à qual todos temos direito quando a vontade de trabalhar é muita e a fome ainda maior.
Vou ser sincero: em Portugal não somos nada. Licenciados sem trabalho, perdemos eras à procura de um emprego em conforme com os anos investidos num ensino superior. Vivemos da caridade alheia e sujeitamo-nos à indignidade de uma vida em tudo em desacordo com o estatuto adquirido. Merecemos melhor e queremos melhor.
Em Londres, no entanto, consegui emprego em apenas três semanas como professor numa escola na zona leste, onde agora reside o Parque Olímpico. E assim começou aquela que é hoje uma história feliz. Não graças a Portugal. Não graças a si. Não graças ao seu Primeiro-Ministro e ao seu (des)Governo. Não graças ao Governo que o precedeu e mais os trinta e oito anos de más histórias legislativas. Graças a mim, graças a estes sapatos gastos nas ruas de Londres para não perder dinheiro nos transportes públicos, graças à fome, graças à saudade e ao desespero que só nos empurra para a frente, graças a um sistema Inglês que se baseia na meritocracia, graças a horas sem fim de trabalho porque quando estamos lá fora, porque quando estamos aqui fora, somos emigrantes não desejados e não queridos, porque temos de provar que somos (e somos) mais que os outros, mais que os Ingleses, maiores que os Ingleses, que nem sequer sabem a diferença entre Portugal e Espanha ou se sequer existe uma recessão lá para os nossos lados, de onde vimos, que pensam que no Allgarve somos todos espanhóis, mas que desde que trabalhemos recebem-nos de braços abertos.
Ao fim de quatro meses trouxe para os meus braços a namorada deixada em lágrimas no Aeroporto de Lisboa. A minha irmã? Está emigrada na Alemanha e vive bem e feliz, muito obrigado.
Ao fim de dois anos casei. Ao fim de três anos, tornei-me Director de uma escola em Londres. Nos entretantos, já tinha feito de tudo um pouco no sistema de ensino Inglês e a reputação construída precedia-me. Hoje estou na sub-direcção de uma escola a quinze minutos da minha área de residência.
STOP. Abro aqui um parêntesis (Sr. Presidente da República, tendo em conta o aqui descrito, diga-me lá se não mais valia ter-me deixado ficar em Portugal?).
Profissionalmente realizei-me. Pessoalmente, temos uma casa e viajamos de seis em seis semanas. A Europa está quase toda vista e o ano passado fomos à África do Sul! Isto para já não falar do casamento real, dos Jogos Olímpicos, do Jubileu da Rainha e tanto que insiste em acontecer nesta cidade que é Londres.
Trabalhamos sete dias por semana, mas não nos podemos cansar porque foi para isto que um dia, no já longínquo ano de dois mil e sete, saímos do país que nos viu nascer. Vamos a Portugal três vezes por ano. Voltar para Portugal, só na reforma.
Entretanto, criei o seguinte blogue, já com mais de quarenta e quatro mil visitas, para assim poder partilhar com outros esta aventura, na esperança de que mais professores se nos juntem:

www.daraulaseminglaterra.blogspot.com

Hoje as condições de acesso ao sistema de ensino Inglês são mais exigentes. Mas há emprego, e a população estudantil não pára de crescer naquela que é uma das grandes cidades do Mundo.
E já não odeio o Portugal que me obrigou a partir. Hoje estou preocupado. Estou preocupado com o futuro do meu país e de todos quantos lá deixei, entre família e amigos. Acredito, e quero acreditar numa mudança e não defendo o presente caminho para Portugal.
Sr. Presidente da República, esta missiva já se delonga. Resta-me convidar vossa Excelência a visitar as comunidades Portuguesas em Londres, conhecer as suas pessoas e a vivenciar este nosso dia-a-dia numa cidade de renome, a qual não é mais que uma Babilónia onde, independentemente da nossa origem, nos dão o devido valor quando aqui chegamos para vencer. Possa Portugal, com o seu apoio, enveredar pelo mesmo caminho – é simples: valorize a educação e a formação de um povo e não tenha medo que o mesmo, uma vez formado, ocupe o seu lugar. Para o bem de um país melhor.
Com os meus cumprimentos
João André Costa

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