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Torna-se difícil começar um texto, quando escrito com o coração, ainda que dividido por dois.

Pois começo eu. Sou a Joana, tenho 29 anos, sou formada em Engenharia Química pelo ISEP, onde no início do curso, vi esmorecido o sonho de trabalhar na indústria textil, quando um professor me aconselhou a emigrar para a China ou a Índia, dada a deslocalização desse sector. Fiz Erasmus e terminei o curso, sempre conciliando os estudos com alguns part-times enquanto estudava.  Regressei a Portugal e trabalhei três anos numa PME, onde tive a oportunidade de trabalhar num sector emergente  mas fortemente dependende da construção civil. Fui dispensada em final de 2011, dada a crise generalizada e perdi a conta aos imensos currículos enviados. Respostas: ZERO. Emigrei. Ao final de três meses, comecei um novo percurso profissional mais ou menos na minha área (português que é português, dá sempre a volta), exigente, desafiador mas no qual me sinto bastante realizada. E para terminar, fiquei noiva do Ivo, já no Reino Unido…

Pois, e eu sou o Ivo, nascido no Porto e formado verdadeiramente em Engenharia Mecânica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Se há dois anos me dissessem que hoje estaria emigrado, rir-me-ia e nem sequer punha essa hipótese, pois considero-me uma pessoa ligada à família, aos amigos e acima de tudo, aos bons costumes portugueses, no fundo, um orgulhoso português. Tinha emprego como bolseiro de investigação, com a possibilidade de passar a efectivo/contratado, mas como a Joana estava desempregada, a ambição duma experiência internacional e “o que hoje é verdade, amanhã é mentira” no que toca a promessas de progressão de carreira, decidi dar um novo rumo à minha vida. Estou hoje a trabalhar num sector em grande expansão (indústria aeroespacial) e quero, quero mesmo pensar que sim, que estou a ganhar experiência para no futuro poder regressar, sem ter arrependimento por ter deixado o meu País.

E é já em Março que vai fazer um ano que emigramos. Estamos muito felizes, principalmente porque nos temos um ao outro mas não podemos esconder que há um fantasma que nos assombra: o desejo de voltar a Portugal. Quando? Não sabemos, nem conseguimos precisar. Não há sinais de mudança nem de esperança, muito pelo contrário. Cada vez mais somos confrontados com situações similares à nossa e sentimo-nos revoltados, porque cada história nos faz reviver um pouco mais a nossa, nomeadamente o facto de nos privarmos do carinho fisico e diário dos nossos familiares e amigos.

No entanto, aqui encontramos a qualidade de vida que nos permite estar “perto” de casa, continuar a nossa aprendizagem profissional e trabalhar para os nossos sonhos. Cedo concluímos que Portugal não é pior nem melhor que o Reino Unido. Por exemplo, o serviço nacional de saúde é impecável no Reino Unido, já os transportes públicos são uma desgraça, principalmente no que toca às tarifas/horários dos comboios (privatizados). O que faz repensar os modelos de privatizações, céleres e às três pancadas que se tentam fazer em Portugal. A imitar qualquer coisa, só o melhor.

No geral, não temos queixa dos serviços consulares a nós prestados mas não podemos deixar de aconselhar aos funcionários portugueses, uma dose de solidariedade  e de compaixão pelas pessoas que lá se deslocam e que se encontram desesperadas. No mínimo, que o atendimento seja o mais profissional e cordial possível, como tem que ser e as atitudes racistas/xenófobas que sejam deixadas em casa, bem escondidas no fundo da gaveta. E uma curiosidade, é possivel que os funcionários destas instituições portuguesas tenham hábitos “Reais” (de realeza mesmo), por contágio da monarquia Inglesa e possam auferir do gozo dos feriados ingleses e portugueses? É impossível de comentar ou de incluir nos “direitos dos funcionários”.

No que a política diz respeito, o que mais choca neste (des)Governo que é mesmo muito fraco, é mesmo a falta de uma voz forte na oposição partidária…um Governo só é fraco, porque o mesmo se passa na oposição. Esperança, zero! Não com estes agentes políticos, as pessoas estão saturadas desta gente que se vai tornando “profissional” da política desde os tempos das juventudes partidárias até conhecerem o aparelho por dentro, os seus podres e encontrarem os “amigalhaços” que, um dia mais tarde não se esquecerão deles. Eu (Ivo), pertenci a uma juventude partidária e pude verificar o que ingenuamente não queria acreditar quando tal me era dito…uma desilusão. Egos incrivelmente vaidosos, promiscuidades com conflitos de interesses, promiscuidades entre homens e mulheres, excesso de camaradagem/”amizade”, guerras internas mesquinhas, tráficos de influências, etc. etc. O nível de graxa e lambe botas chega mesmo ao ponto de verdadeira prostituição intelectual. Daqui advém um dos maiores cancros da sociedade portuguesa…a corrupção. Não há a possibilidade de negar que em Portugal este fenómeno não existe e vai-se criando o mito errado de que o nosso País vive à custa das ajudas da UE e que grandes desfalques ocorrem nestes programas. Esta visão é partilhada por uma considerável percentagem de ingleses, (e imagino que nos outros países do norte da europa se verifique o mesmo), ou seja, não passamos de uns bons maladros e “bons alunos” do “chico-espertismo” que está a “roubar” os empregos aos nativos desempregados. Entristece e revolta-me esta visão populista e idiota, um pouco à imagem de um Primeiro-Ministro em que põe em causa um projecto de paz europeu e que afirma que os estrangeiros procuram este país para viverem à custa dos subsídios/apoios sociais. Vive claramente deslocado da realidade, ou não fossem as jovens inglesas peritas em engravidar para poderem ter acesso a uma vida independente dos seus pais, mas dependente do país. A mediocridade é geral, portanto.

Ligações a Portugal, pois vamos cá enumerar e não por ordem preferencial: as visitas que fazemos ou que nos fazem, a comida portuguesa no mercado tradicional e a comida portuguesa que fazemos diariamente (ora essa, não nos rendemos ao fish and chips), o bacalhau demolhado e congelado usado para matar as saudades que a avó do Ivo nos presenteia cada vez que regressamos à base, a TV por satélite que nos traz o imperdivel Eixo do Mal o os jogos do FCP (que torcemos para que nos venham visitar a meio caminho, talvez Wembley?)… muitas coisas, sem esquecer o essencial, a língua portuguesa que falamos entre nós e com um grupo amigo de portugueses das redondezas.

Portugal é o nosso País e nós deveríamos, e queríamos, contribuir com o que melhor temos e podemos dar, sem ser como turistas com havaianas e meias, pois ainda há costumes ingleses que não conseguimos acompanhar.

Resta-nos desejar um voto de esperança e de força a todos os Portugueses, que encontrem um cantinho de sossego e de felicidade, preferencialmente em Portugal que é a NOSSA casa.

Fiquem bem,
Joana e Ivo

01 de Março de 2013