Os expatriados e os emigrantes

Aqui no Reino Unido há dois tipos de pessoas que deixam o respectivo país.

Por um lado, os que vêm para cá, os imigrantes, são cada vez mais indesejados. São descritos como pessoas que estão a mais, que consumem os recursos do país, os lugares nas escola e nas filas para os hospitais. Que têm empregos a fazer sandes ou a assentar tijolos. Quando não são mesmo descritos como oportunistas que apenas vieram para viver à custa da segurança social britânica.
Por outro lado, os britânicos que deixam o país são pessoas com ambição. Vão para o Dubai, para os Estados Unidos, vão triunfar em Hollywood ou em Wall Street. São os “expats”, os expatriados.

Ambas as descrições são tendenciosas, por omitirem a outra face da moeda. Muitos estrangeiros no Reino Unido têm lugares de relevo. Num país dominado pelo sector financeiro, o governador do Banco de Inglaterra é canadiano, os bancos Lloyds Bank e HSBC são presididos por portugueses. E basta ver séries televisivas sobre os ingleses em Espanha para ver os celebrados “expats” a terem vidas preguiçosas ao sol, e os reformados a abusarem do sistema de saúde espanhol. Outra caricatura, mas que mostra que todas as generalizações pecam por descrever a realidade de um modo imperfeito.

Em Portugal também há um mito. Não, não é esse, o de que o primeiro ministro não disse o que disse sobre o incentivo aos jovens para que emigrem. Não, é o mito de que só os jovens qualificados emigram. Ou os banqueiros, e os treinadores de futebol. Todos os dias chegam a Londres pessoas de 40, 50 anos, a quem o estado português deixou de apoiar no seu desemprego, e que buscam qualquer oportunidade de refazer a vida – trabalhar num restaurante, nas obras, nas limpezas. Ou jovens, com o mesmo perfil. São aqueles que o presidente da República não conhece, e que nunca acolheria se porventura visitasse este país.

Sim, muitos portugueses e portuguesas vêm para uma vida mais desafogada trabalhando com as qualificações que as escolas portuguesas lhes deram. São informáticos, são enfermeiros, são investigadoras, são deserdados e deserdadas de um país que lhes não dá oportunidades. Que lhes paga ordenados de 500 euros, e que manda as jovens para o desemprego quando engravidam.

A presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho disse hoje que Portugal deve cativar os jovens altamente qualificados para que não deixem o país. Só esses? E os menos jovens? E os menos qualificados? Não são queridos pela nossa pátria poruguesa? Vamos criar duas categorias de portugueses ? Os “expats” e os emigrantes? Os que queremos que fiquem e os que achamos bem que se vão embora?

Pois bem, os emigrantes têm novidades. “Expats”, somo todos nós. Cada vez mais longe dos destinos de miséria e infelicidade que o governo do nosso país traça para Portugal. Cada vez mais portugueses no coração, cada vez mais expatriados por esta casta política e desejosos de lhes dizer adeus e os mandar embora.

Paulo Costa, um emigrante, um expatriado, um português.

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